POESIA E PROSA


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DIVULGANDO OS TRABALHOS DOS NOSSOS SÓCIOS

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31 de Maio de 2007

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Paixao de Cristo

Pascoa-Cruz

PÁSCOA DE CADA DIA !...

SENHOR, como é difícil e duro o caminho para chegar à Páscoa !...
Não é a Páscoa de Março ou Abril, que essa nos leva o tempo, sem grande esforço.
A Tua Páscoa, a Páscoa de Vitória, a Páscoa da Vida...Páscoa em que os Aleluias dão sabor à festa  do coração liberto, da morte vencida, do tempo novo de todos os que creem em ti !...
Difícil o duro caminho, porque queremos tudo de uma vez, e nos esquecemos que os defeitos, as faltas e os desvios se colam aos ossos são como ferrugem e lixo que estimamos e guardamos, como se fossem pepitas de ouro.
Por vezes, fizemos de alguns pecados virtudes, e não falta quem, por via deles, nos incentive: chamamos dignidade pessoal ao nosso orgulho, e não falta quem, por igual cegueira, entre no nosso jogo...

Ao chegar à Páscoa, descobrimos sempre em nós fermento velho que perdura, porque cuidamos dele, como coisa de estimação...
A Tua Páscoa, Senhor, bem o sabemos, é vitória definitiva, passagem da morte à Vida, geração de homem novo, que só o amor explica, que só o amor perdura ! Amor aos outros, que nasce do Teu, como diz a Tua palavra.

"Sabemos que passamos da morte à Vida, porque amamos os irmãos". Tu queres que seja assim a nossa Páscoa, como a Tua ! Passagem diária da indeferença ao amor, do egoismo à partilha, do desânimo à confiança, do eu ao nós, da condenação ao perdão, do interesse mesquinho à dádiva gratuita, da mentira à verdade, do semssentido ao rumo certo, das comodidades ao esforço, de intolerância ao diálogo...

Qualquer coisa dentro de nós nos fala, sem nos enganar, do mal e do bem, da vida e da morte, das raízes que estão dentro, das colagens que vêm de fora...
Uma luz que ilumina, um grito que não se abafa, nem se cala.

Bem sabemos que a Páscoa não são os bolos, nem as amêndoas, nem os cânticos, nem as tradições que perduram...
São enfeites da festa, quando a Páscoa é a Festa ...

Tu, porém, nos convidas, já hoje, a recomeçar a nova caminhada, na força do Espírito, na Esperança que persiste, na Fé que não se apaga... até que o Aleluia seja diário: a Vida...abundante; o Amor...sem ocaso; a alegria...sem lágrimas; o caminho...sem regresso; os outros...como nós; os nossos gestos...sempre pascais!...

Então, só então, endereçamos que esta Páscoa e de sempre, para ser a Tua Páscoa e a nossa, tem de ser, todos os dias, a experiência sentida da Vida que liberta !

PÁSCOA FELIZ !
-Mano Belmonte-
manoamano@sympatico.ca



Mano Belmonte -Tertúlia- canta para o poeta Pedro H.deMello-1972
Mano Belmonte -Tertúlia- canta para o poeta Pedro H.deMello-1972


-Entre-parêntesis e àspas-


-Pedro Homem de Mello-

( Homenagem)

(Faleceu a 5 de Março de 1984)


Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello, nasceu no Porto a 6 de Setembro de 1904 e faleceu na mesma cidade a 5 de Março de 1884. Foi poeta, professor e folclorista português.


Descendente de uma família fidalga, filho de António Homem de Mello e de Maria Pilar da Cunha Pimentel, tendo desde cedo sido imbuído de ideais monárquicos, católicos e conservadores. Foi sempre um sincero amigo do povo e a sua poesia é disso reflexo. O seu pai, pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.


Estudou direito em Coimbra, acabando por se licenciar em Lisboa, em 1926. Exerceu a advogacia, foi subdelegado do Procurador da República e, posteriormente, professor de português em escolas técnicas do Porto ( Mouzinho da Silveira e Infante D. Henrique), tendo sido director da 'Mouzinho da Slveira'. Membro dos Juris dos prémios de secretariado da propaganda nacional. Foi um entusiástico estudioso e divulgador do folclore português, criador e patrocinador de diversos ranchos folclóricos minhotos e D'ouro Litoral, particularmente. Foi durante os anos 60 e 70, autor e apresentador de um popular programa na RTP sobre essa temática.


PEDRO HOMEM DE MELLO casou com D.Maria Helena Pamplona e teve dois filhos, Maria Benedita, que faleceu ainda criança e Salvador Homem de Mello, que faleceu sem deixar descendência poucos anos após o seu pai.


Foi um do cloaboradores do movimento da revista 'Presença'. Apesar de gabada por numerosos críticos, a sua vastíssima obra poética, eivada de um lirismo puro e pagão (claramente influenciada por António Botto e Frederico Garcia Lorca), está injustamente votada ao esquecimento. Entre os seus poemas mais famosos destacam-se 'Povo que lavas no rio' ' Havemos de ir a Viana' e ' O rapaz da camisola verde', imortalizados por AMÁLIA RODRIGUES'.


Afife (Viana do Castelo) foi terra da sua adoção. Ali viveu durante anos num local paradisíaco, no Convento de Cabanas , junto ao rio com o meso nome, onde escreveu parte da sua obra, "cantando" os costumes e as tradições de afife e da Serra de Agra.


Pesquisa e adaptação : Mano Belmonte

manoamano@synmpatico.ca  //  www.venuscreations.ca/ManoBelmonte



CRÓNICA DO CANADÁ

Meditando

A vida é sofrimento e toda a sua beleza se dissiparia se não houvesse um objectivo para qual todos nós caminhamos. É constante a luta pela subsistência, o temor do dia de amanhã, que nos traz aquilo que a vida tem de mais cruel e belo: O sofrimento.   Sofre o rico e o pobre, o cómico e o pessimista. Jamais nos contentamos com aquilo que temos; queremos mais.... No meio do nosso íngreme caminho, arrastando cada qual o pesado lenho, procuramos atingir o cimo, menosprezando tantas vezes aqueles que nunca conseguiram dar o primeiro passo da subida, aqueles a quem a sorte não bafejou. Queremos mais, cada vez mais, olvidando milhares de seres, que nada têm e tão merecedores como nós.   Começamos a subir a ladeira, morosa ou velozmente; atingimos o meio, procurando o cimo que por vezes se alcança. Chegando ao cimo, queremos mais, cada vez mais. Os de baixo querem o meio, os do meio o cimo e os do ilusório cimo, se verdade fosse, tudo quereriam. É vulgar dizer-se que um ser, a quem a sorte bafejou, é infeliz. Acrescento eu: tão infeliz, senão mais, que aqueles que nem o primeiro passo da subida conseguiram dar. E sofrem... Porque sofrerão, então ?... No cimo ou em baixo, bafejados pela bonança ou tormenta, jamais será a terra que conseguirá preencher a ânsia que nos vai na alma, a lacuna da nossa existência, daquilo que não temos e nem sequer sabemos o que é, o oásis da nossa incompleta vida. O homem tem um objectivo, tem um fim, que cedo ou tarde, florido ou nu, terá que atingir. Mesmo o céptico, que analisa cruamente o problema do fim de toda a existência, não poderá, por sábio que seja, sem erro notório, deturpar a realidade: Há vida no Mundo. É máxima filosófica indiscutível de René Descartes: penso, logo existo. Se penso, sou alguma coisa, se existo, vivo. De qualquer ângulo que a vida humana seja observada, seja qual for o prisma pelo qual observemos a existência, jamais poderemos negar lógicamente a evidência. Vivemos, e como tal, alguém nos criou; nada se cria por si só. Há um SER superior a nós. A nossa existência terá forçosamente que ter uma explicação e não negaremos que tudo o esse Ser criou é perfeito. Se aqueles que exigem método são metódicos, se quem exige disciplina é disciplinado, quem cria coisas perfeitas, perfeito terá que ser. Esse Ser existe, pois, e é evidente que só atingiremos a verdadeira felicidade quando no princípio, meio ou fim da íngreme subida, analisarmos a nossa fisionomia e, convictos, podermos dizer, a imagem que o espelho me reflecte sou eu, eu não sou nada, o espelho nada me mostra. Só atingiremos a verdadeira felicidade quando encararmos as alegrias e tristezas, o bem e o mal, com a ideia fixa e indissipável de que a vida com as suas flores e espinhos, nada representa; quando verificarmos que aquilo a que chamamos o fim da vida, é o princípio e que nesse princípio está encerrada a verdadeira explicação da nossa existência, as alegrias e os espinhos, a realidade da vida e para a qual fomos criados: DEUS.

Pensamento da Semana- É preferível não reconhecer a Deus, não acreditar na vida eterna do que acreditar num Deus que em nome da outra vida despreza, oprime e humilha o ser humano nesta vida. -Schillebeeckx- (Teólogo dominicano)

MANO BELMONTE

manoamano@simpatico.ca  //  www.venuscreations.ca/ManoBelmonte


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O DESTINO ENCONTROU AMIGOS

Poetas são arcanjos que meu ser abraça
Deles irradia a alegria e o bem estar
São sóis que brilham dão-nos ao ser enorme graça
Amigos são prazeres na madrugada a despontar
Amigos poetas fazem de todas manhãs
Mais um despontar de sol a irradiar alegria
Fazem esquecer as acções menos sãs
Quando se juntam a declamar a mais bela poesia
Amigos são sóis que fazem desaparecer os pingos de tristeza
Trazem em si um universo de carinho
Neles se encontra satisfação, no rir na franqueza
Parece que estamos entre irmãos no mesmo ninho
Amigos, sóo luzes, sentimentos de terna emoção
Estar entre poetas e amigos, é um prazer
Uma honra, que justo nosso coração sente
Nos anima mais verdade escrever
Pois o poeta pode fingir mas não mente
Desculpem por ter partido com vontade de ficar
Sinto amor por toda a brincadeira
Havia em mim um sagrado dever de recitar
Entremeio a saúde de minha companheira
Aí está o motivo porque não pude ficar
Ser dos últimos a partir da brincadeira

Armando Sousa
27 de Julho de 2007

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HUMBERTA ARAÚJO

foto de Humberta Araujo
Jornalista desde os 19 anos Humberta Maria Araujo nasceu em Vanderhoof BC, Canada. Aos 7 anos regressa a S. Miguel, ilha da qual a família partiu em 1960. Os anos da infância e adolescência foram passados no meio rural junto dos avós e de algumas das mais típicas características do viver açoriano. Desde muito jovem o lápis e a folha de papel foram companhia. Um dos seus primeiros poemas - que ainda guarda - foi escrito para uma amiga. Tinha então cerca de 11 anos e chamava-se "Para a minha amiga Eduarda". Desde então que a prosa poética e a poesia fazem parte da sua vida. Aos 19 anos ingressa na Comunicação Social tendo passado pelo Açoriano Oriental, Correio dos Açores, Revista Açores, RDP, Rádio Clube Asas do Atlântico em Santa Maria e depois a RTP-Açores. Durante 11 anos foi voz e cara da TV açoriana. Publicou em suplementos literários vários poemas e contos nos Açores. Tem publicada poesia em revistas da especialidade canadianas. A literatura infantil também é uma das suas paixões tendo publicado " O Livro que não Gostava de Computadores" e " A Avó que não Sabia Ler e outras Estórias dos Açores", este último patrocinado pelo Governo Regional dos Açores.Para publicação tem em manga vários trabalhos de investigação: "Alice Nunes e o Asas do Atlântico", " Halifax at Sight" para além de um colecção de fotos comemorativas dos 50 anos da emigracão, uma colectânia de poemas e literatura infantil. Actualmente é responsável pelas questões comunitárias no jornal Nove Ilhas de Toronto, após uma breve passagem como "pivot' no FPTV. Bacharel relações Internacionais pela Queen's University, é também professora part-time no Catholic School Board de Toronto.

JÁ DE NADA SAUDADES TENHO...

Já de nada saudades tenho..
.dos abraços, o langor maduro
dos passos
nas ruas onde os nomes se cruzam
na coincidência das tardes.

Não fomos nada antes do instante,
a herança das Quinas
por entre a multidão de peles coloridas,
tecidos, especiarias.

Da ponta de Sagres o Infante olha-nos
no dia em que o futuro não tinha meta.
Pensava ele nos novos mundos
quando o mundo era ainda
o caos dos espaços
de Chinas amarradas às Africas.

E o mar
Aquele mar
Sempre a separar
E a corromper!

Humberta Araújo
Toronto, 6 de Julho

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J.J. Marques da Silva

J.J. MARQUES DA SILVA. É natural de Almeida, distrito da Guarda, Portugal. Formado em Contabilidade, inscrito no Ministério das Finanças, e em Teologia Bíblica.

Em 1957 fixou-se em Angola (colónia portuguesa) e repartiu o seu tempo: como Contabilista numa Empresa Comercial e, como pastor, pelo ensino e formação da Igreja Cristã Evangélica de Luanda, hoje Igreja Cristã Evangélica de Angola.

É pai da escritora e professora Dr.ª Aldina da Silva (já falecida), e do pastor Dr. José Manuel da Silva, em exercício actual no ministério evangélico de Montreal, e da Missão "Urbanus" em África. Ama a Poesia e a Língua Portuguesa. Os seus escritos estão insertos nos jornais Portugal Novo, Renascer e outros, Antologias e Boletins dispersos. Norteia-se por uma tricotomia que o identifique com a triunidade divina, de onde lhe vem a inspiração, o sentimento e a sensibilidade que o leva a existir em amor, projecção e utilidade.

Chegou ao Canadá em 1982 e, além dos serviços eclesiásticos onde pontifica, ensinou durante 22 anos na Escola Secundária Lusitana, de Montreal. É colaborador do jornal A VOZ DE PORTUGAL, e aparece em SATÚRNIA, na Internete, sítio de Manuel Carvalho, com Poemas, Contos, etc. Publicou MIGALHAS NA AREIA, em 2005, livro de Poesia, e tem na forja mais um, de Contos, e a seguir outro de Poesia.

UM DIA PARA AS MÃES!

Poemas de ternura, consagrados,
são as Mães nos caminhos da amargura;
pedacinhos de Deus, cujo legado
foi dar-lhes coração com a brandura
de ter firmeza, mas amor dobrado
aos filhos qu'ridos, sua desventura!

São craveira na regra de heroísmo,
acérrima defesa e pronta acção
quando os filhos carecem de civismo
ou se perdem no mundo em convulsão.
Suprimiriam ódio e fatalismo,
o próprio inferno, digno de aversão.

Advogadas dum céu imaginário,
legistas débeis do destino incerto,
as Mães purgam na dor o seu fadário
se o próprio Deus não se aproxima perto!
Mas se o milagre surge, caudatário,
não há gozo maior em céu aberto!

Sofrem e amam na enfermidade;
abrem o céu se morre um filho amado;
prestam-se a tudo p'ra matar saudade;
dão-se na súplica do amor alçado!
Dêmo-lhes nós, em boa afinidade,
um dia de louvor em alto brado!

J.J. Marques da Silva



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A GÉNESIS E O DESAMOR

                           Gén.1:28; 2:18

Solidão não é remate
da criação acabada
nem da vida o seu desvio.
..................................................
E Deus, ao homem que é pó,
deu a mulher como empate
da sua carne formada
para ajuda em desafio.
--"Não é bom que esteja só!"

Bênção de Amor projectado
e alegria de viver.
Era o progresso da vida
neste mundo a florescer.
--"Multiplicai-vos!"-Enfado
jamais tenhais sem sofrer...
--"Enchei a terra florida
e colhei dela prazer!"-


O Amor é arquitecto.
--"Fecundai com gozo e paz,
dominai na terra e mar,
colhei frutos saborosos!"--

Para o labor era afecto
e o prémio que satisfaz.
Para a família e seu lar
era ter filhos gloriosos!

O Amor não é suspeito.
Na Técnica ele é firmeza,
e só procura ruína
quando se torna imprudente.
Mesmo na Arte, o preceito
é ter a firme grandeza
de quem ama, e não rotina
duma reserva mordente...

Mas, lutando em desafio,
o ser humano caiu
no logro do desamor.
Pensou ganhar, mas perdeu...
Em vez da Obra, o fastio
dum "prefácio", impediu
matéria de alto valor
com acção que feneceu!...

E depois o desconforto
duma existência banal,
trouxe guerra e muita dor,
separação sem ajuste...
O Direito virou torto;
o Lar ficou badanal;
a Nação perdeu honor!
...........................................
Desamor é sempre embuste!


J.J. Marques da Silva

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Antonio Vallacorba

ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA VALLACORBA. Nasceu na freguesia de S. José, Ponta Delgada, S. Miguel, Açores, a 12 de Julho de 1940. É casado, pai de um filho. Tendo frequentado os cursos nocturnos da antiga Escola Comercial e Industrial de Ponta Delgada, emigrou com a idade de 26 anos para 0 Canadá, em 1966, estabelecendo-se desde entáo em Montréal onde ainda reside. Encontra-se presentemente aposentado, depois de ter trabalhado 32 anos no Departamento de Radiologia do Hospital General de Montréal. Desde 1984 que colabora para 0 jornal "A Voz de Portugal", cobrindo manifestações religiosas e sócio-culturais da comunidade, e onde juntamente corn "O Emigrante", há publicado a maioria dos seus poemas. Nesse mesmo ano, ingressou na equipa portuguesa da Rádio Centre- Ville, realizando ali 0 programa cultural de índole açoriana, "Crónica Insular". Tern vasta colaboração em outros jornais da diáspora, nomeadamente no "Portugal Ilustrado", de Toronto, e no "Portuguese Times", de New Bedford, EUA. Nos Açores, colabora mensalmente para os jornais "Açoriano Oriental" (Ponta Delgada), Diário Insular (Angra do Heroísmo) e Correio da Horta (Faial), entre outros. O seu poema "Eu Não Sou Daqui" ganhou o primeiro prémio num concurso de poesia, realizado aquando das comemorações do 25.° aniversário de "A Voz de Portugal".

DECEPÇÃO

Foi um assíduo tormento na tua ausência
estes árduos dias como séculos passar.
Eu já não tinha a fixa ideia do teu olhar
que preenchia o vácuo da minha existência.

Na vivência dum sonho uma noite procurei
todo o lumiar da tua graça e beleza.
- Como é bela!, exclamei então, a princesa
em seu altivo castelo, o castelo que sonhei.

Mas de súbito ao despertar, enlouqueci ver
desfeita em nada toda a razão do meu ser,
já nada interessava senão a morte desejar.

Pois porque aquele eterno sonho ido então
despedaçara para todo o sempre meu coração
contudo lamento ter jurado jamais amar!

António Vallacorba
In "Peito Açoriano"

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autoria de Oscar Monteiro MITO

Apesar da carne, da cruz
Raízes de palavras mórbidas
Eu vivo
Dispersa entre as sementes mundanas
Ressuscito risos, gestos e abismos
No limiar do peito em gritos afogados
O fogo lateja em suspiros
E nada me detém
Nada tem limite
Só a consciência
Só a loucura
E outras falsas ilusões

A reflexão é sempre um perigo
Uma ameaça constante
Uma doença sem cura
Que arranca dentro de nós
Essa seiva do fatalismo
E envelhece o sentir

Este vibrar oculto que flutua em silêncio
Esta forma oscilante a que chamamos
“destino”
Esse não existe
Só tu
Só eu
E os nossos inquietantes anseios

Ana Júlia Sança

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RENASCER

Desenhar-te o gesto
Escrever-te o nome
Pouco serve uma elegia
Na onda azul onde apodrece o tempo.

Barcos verdes atravessam
Os rostos afogados dos jovens
Cantando na nudez dos tempos
             Era tão jovem!
             Era tão jovem como nós!
Uma lágrima desprende
E cai sobre as açucenas
Como um grito.
Che Guevara, meus irmãos.

Ana Júlia Sança

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GAFES DA ALMA

Habita já em mim
O êxtase do Outono
Oh, como é diferente este bater do coração!
E a vida nao é só este pulsar
É mais que um poema de partida
De reencontros ou de instantes sintéticos…

Este bocado de mim onde te agachas
Ocupas-me e tornas-te definitivo
Como se fosses lava
A respirar na terra funda,
O primeiro instante em que fomos
Pão, vinho e suor…

Como brisa nocturna inebriante
Jogada na geografia do espaço
Meu corpo ilha de conjecturas cósmicas
Busca e espera pelo teu corpo ignescente
Num Outono ungido de seiva, maresia
E mais trinta e um beijos sem delírios.

Ana Júlia Sança

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EMIGRANTE

O drama começa no momento
Em que nasce a ideia de partir
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!
Esta é a alcunha que te deram.

A tragédia que isso acarreta
Consome anos de existência
Aniquilando lentamente
Castelos edificados de ilusões
Que dos sonhos ainda restam.

Emigrante!
Fantasia dos que ficam
Américas

        Alemanhas
                 Franças
E outros mundos sempre iguais…

Emigrante!
Suportar esse título tão honradamente
Ter que comer o pão que o diabo amassou
Ser sempre forasteiro em terra alheia.

Sim, emigrante!
Emigrante=sobrevivência

 
Gritos da alma
Ambiçao amordaçada
Desejos frustrados
Vita brevis num copo de vinho
Esquecer as amarguras
``Da Terra Prometida``

Ana Júlia Sança

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PROFUNDAMENTE ESTRANHO

Sentir esse gosto de amar
Num rompante de um olhar secreto
Toda a magia de uma boca em vitral
Depois
Como uma flor translúcida
Adivinho nos filamentos metálicos de voz
Essas palavras que foram flores
Terra, pó, sabor mareante
Música na onda, cheiro agreste…

Tuas palavras foram caminho e sombra
Ilhas geminadas entre ti e mim
Luas maduras tangendo madrugadas…

Assim leio-te como um épico
Com teorias
Filosofias
E outros ias afins

No teu corpo agora derramado
Vivemos a mesma derme

Ana Júlia Sança

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autoria de Oscar Monteiro
Este poema foi o que li no lançamento do Grémio no Consulado de Toronto.


SONHO DESFEITO

Sonhei ser um escultor
Tu eras o estátua de pedra enegrecida
A minha coroa de glória
Porém ao acordar na noite escura reparei
Na sombra do que fui e sou agora
Farrapo de ilusão que não vivi
Sonho de amor desfeito com que sonhei
Porque não sonhar sim a realidade
Glória do que não tive, nem terei
E na noite escura,
Olho-te, e passo minhas mãos pelo teu corpo frio
Invejo o teu silêncio
A tua calma
O teu corpo de pedra e sem ter alma
O teu olhar de vidro, que não fita ninguém
E sinto também meu corpo empedernido
Minha alma vazia e sem ter fundo
Meu coração de pedra
Para não te querer a ti nem a ninguém.

Luís Palaio

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Este poema foi o que escolhi para ser divulgado no nosso portal se acharem que está bem.


PEÇO-TE

Se um dia pensares fugir,
                   leva-me contigo.
Eu sei que nada sou,
                   e pra qui estou.
Se um dia pensares fugir,
                   leva-me contigo.
Procurarei a água para te matar a sede
E o pão para te matar a fome
Serei surdo e mudo
Poderás encostar a tua cabeça ao meu peito para chorar
E as minhas mãos serão só para te afagar
Se um dia pensares fugir,
                   leva-me contigo.
Seguirei o caminho que mandares
Subirei as montanhas
Descerei a profundeza dos mares
Mas,
Se um dia penssares fugir,
                   leva-me contigo.

Luís Palaio

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Aqui esta uma breve biografia minha.

Palavras de Clara Abreu:

“Luís Palaio, um homem que escreve na tela histórias lindas com o auxílio do pincel e das tintas e que escreve também sobre o papel as palavras que brotam da sua alma e ganham forma de poemas. Exactamente, para além dos  grandes dotes artísticos e não só, que lhe conheciamos, descobrimos o Luís Palaio poeta.  A poesia sente-se ao escrevê-la, ao lê-la.  Vamos, pois deixar que a sintam através dos versos de Luís Palaio.”



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POESIA DAS ILHAS

Foto das Ilhas A distância e a solidão,  inerentes às ilhas perdidas na imensidão da noite oceânica, fez dos seus filhos e filhas, poetas, músicos, artistas, cantadores de improviso, gente criativa que pinta velas enfunadas de esperança  e tira do peixe as escamas da arte, escritores marcados pela insularidade de horizontes finitos.

Nas ilhas, a poesia nasce de almas sensíveis unidas nessa distância ou solidão, em mundos apartados por circunstâncias existenciais e que, se querem em silêncio na impossibilidade de pararem o tempo ou modificarem o destino, plenamente cônscios da impossibilidade do amanhã.  

A poesia dá as mãos à melodia do tempo e alimenta-se da saudade do passado, das amarras do presente ou das incertezas do futuro. Simples, complexa  ou abstracta, rimada ou livre, cantada, chorada ou trinada nas cordas do coração, é o reino de quem a sente, o grito de quem a transmite ou o silêncio de quem a ouve no vácuo da melodia da vida de quem a vive.

Ditada pelo sentimento, é um veículo de libertação emocional - milagre existencial, que leva o poeta a atravessar espaços ou a vencer obstáculos ao encontro imaginário desse ou daquilo por que anseia – objecto idealizado, talvez nunca existido, mas que se torna em tábua de salvação, ponte de espera impossível, ancoradoiro de esperanças falidas no tempo.

A poesia parte em peregrinação por terras e mares, sem rota ou destino, rumo a horizontes desconhecidos. Não procura guarida nem porto de acolhimento, segue fugindo à realidade, levando consigo alegrias, dores ou desenganos, mágoas que partilha com o papel e com esses e essas que entendem o que é dito nas linhas e entrelinhas e, mais importante ainda, o que fica por dizer, mas que se pressente no poema.

A poesia é o resgate da alma que se sente prisioneira - ilha isolada na nostalgia do passado ou na desventura do presente e parte só, com destino ao amanhã, cônscia de que o mar que une e separa num paradoxo singelo, é o vértice da saudade, o diâmetro de ligação, o mundo onde cabem ou se afogam todas as brumas da vida…

A poesia é uma maneira única de orar e de elevar ao alto, num arranjo sublime, os cânticos silenciosos de utopias imaginadas, da comunhão de almas separadas por oceanos de vida ou de morte, em abraços de solitude, numa linguagem expressa com o sentimento que brota do âmago de seres cuja sensibilidade alimenta a saudade com a música da alma tornada lírica, ou a nostalgia disfarçada em sorrisos e entrelinhas de rimas lançadas ao vento.

A poesia é a linguagem da saudade que, sem tradução, fala em qualquer tempo e que, olvidando gramáticas convencionais transmite mensagens que chegam aos confins do universo. É oração, fado, confissão, expressão de amor, de amizade, de reconhecimento ou de dor, da saudade dos que sentem e vivem as suas origens, deixando que as palavras lhe brotem da alma, em ondas morosas que trazem sabores de terra e mar, em noites que temem a madrugada.

A poesia é a música do espírito  e vive reclusa nos recantos da alma de todos nós.

Fátima Toste


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A POESIA

A poesia é um soluço do fado
Grito de um coração entristecido,
Canto de quem vive amargurado
No silêncio dum cantar emudecido.

A poesia viaja em aventura
Sem destino sem rota e sem medo,
Leva seu sonho, sua dor, sua loucura
E regressa tarde, pensando qu´é cedo.

É a hora de partir e querer ficar
Um despertar p´ra nova realidade,
É um adeus que sorri quase a chorar
É a vida, no momento da verdade.

A poesia quando só, medita
Na desventura dum viver sem norte,
Fala co´o destino que lhe lê a dita
Na palma da vida que nasceu sem sorte.

A poesia é saudade é emoção
É o sentir da alma num gemido,
É Calvário, é Cruz - Ressurreição
Remissão duma vida sem sentido.

Fátima Toste

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O MAR DA ILHA

O mar da ilha vivia nas nossas casas. O seu marulhar ouvia-se nos búsios que ancoravam na costa e se escondiam na areia negra da praia. O perfume da maresia penetrava e permanecia no fundo de cada um de nós, acompanhando-nos pelos campos temperados de salitre, que a brisa levava por montes e colinas.

O mar da ilha dançava connosco a valsa da vida enlaçado em abraços de ventania que zuniava canções dolorosas em dias de tempestade.

O mar da ilha arrancava do seu âmago, braçados de sargaço que vinha repousar na costa, enchendo o ar de um aroma marisqueiro misturado ao iodo que lhe tiravam das veias para curar as feridas da alma.

O mar da ilha beijava com ardor os corpos acabrunhados das rochas moldadas por séculos de meiguices e acarinhava as lavas esgrenhadas que se erguiam em prece, braços abertos aos céus.

O mar da ilha sentava-se connosco à mesa, à hora da ceia e o seu sabor chegava a terras distantes em lágrimas levadas por ondas de saudades que toldavam o olhar.

O mar da ilha dormia na nossa cama em noites húmidas e solitárias em pesadelos de ausências que pernoitavam nas ondas da vida ou da morte, que se apresentavam sempre com o mesmo sorriso...

O mar da ilha brincava com os nossos filhos em castelos de espuma construídos pela inocência de esperanças juvenis, povoadas de sonhos e fantasias, a que o orvalho salgado se juntava num jogo de cadências morosas e dolentes.

O mar da ilha subia connosco p´ra além das estrelas em orações de silêncio, quando a insónia nos arrastava mundo fora e nos esfolava a alma, deixando-a qual concha partida marejando vulcões de poesia e soluços de tremores que a memória gravava em anais de tormenta sem geografia.

O mar da ilha acompanhava-nos nas horas boas e más em espaços de lazer, em ciclones de amargura e em furacões de tristeza.

O mar morria connosco nas cordas de guitarras trinadas na saudade dos filhos ausentes que se deixaram levar nas asas do açor, na procura das águias douradas de sonhos insulares e ambições existenciais, geradas, nascidas e alimentadas pela pequenez do espaço que asfixiava a ilha.

O mar da ilha... O mar da ilha...
Fátima Toste


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TU Ó MAR!

Tu ó mar que sempre te moldaste a mim
E que vives comigo noite e dia
Que vens da lonjura do mundo sem fim
Para me fazeres companhia,

Tu que m´ensinaste a brincar contigo
Que me acordavas co´o sopro do vento,
Que abanavas o salgueiro amigo
E davas cor ao meu pensamento.

Vem, deixa lá longe no mais profundo
Das marés sem vida, tanta amargura,
Livra-me das correntes deste mundo
E afoga minha dor em tua ternura.

Deixa qu´o vento em tom magoado
Me fale em poemas das ilhas de bruma,
Escuta o meu silêncio angustiado
E cala esta voz qu´aos poucos s´esfuma.

Fátima Toste

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NAS BRUMAS DO TEMPO

Nas brumas da vida vejo almas sofrendo
A dor da saudade do tempo passado,
Lágrimas caindo, silêncios roendo
Memórias d´outrora, estórias dum fado.

No deserto do tempo há almas carentes
Escutando o silêncio das vozes do nada,
Procurando um oásis, sedentos, doentes
Que partem do mundo de alma calada.

Na névoa da mente sinto a ansiedade
Desgostos latentes, cenários pintados
Por gente sofrida – dura realidade
Réstias de memórias, clamores afogados.

Nas nuvens que passam almejo o formato
De vultos de lava ardendo em meu peito,
Presságios do tempo, imagens, retrato,
Marés que me levam num sonho desfeito.

Fátima Toste

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SONHAR QUE NUNCA PARTI

Ah! A ânsia de regressar
De sonhar que não parti
Que nunca galguei o mar
De ouvir gaivotas gritar
Aquele hino que senti
Jamais poder olvidar.

Ah! A dor funda que vivi
Naquela beira do cais
Que eu um dia abandonei
E a tristeza que senti
Entre suspiros e ais
Que num lenço eu afoguei.

Ah! Esta saudade pungente
Que habita em meu coração
E em minh´alma se aninhou
Que vive constantemente
Chorando aquele mar irmão
Que noutra margem deixou.

Emigrante entristecida
Que fizeste à tua vida
Singela que tanto amavas?
Ambição  que te cegou
E que um dia te levou
À terra com que sonhavas.

Ah! Aquelas ilhas de bruma
E a saudade que perfuma
As marés do pensamento
Que sobre mares ondulando
Vão p´rós Açores levando
O grito deste tormento.

Ah! A ânsia de regressar
D´ouvir gaivotas gritar
Naquela beira do cais
Sonhar que nunca parti
Do cantinho onde nasci
E não acordar jamais!

Fátima Toste

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REGRESSO DA ALMA

Regressei à minha terra natal
E vi que tudo afinal
Ainda tinha a mesma cor,
As hortênsias eram belas
O mar, o céu, as estrelas
Mostravam seu esplendor.

Mas havia algo diferente
Não encontrei minha gente
E senti-me entristecer,
Todos tinham já partido
P’ra um mundo desconhecido
Que eu também quis conhecer.

A tarde caíu mansinha
E eu senti-me tão sozinha
Na minha terra querida,
E as nuvens do firmamento
Pararam naquele momento
Ao ver minh’alma ferida.

E esta alma sonhadora
Quis partir e foi-se embora
Sem demorar um momento,
Mas não antes de ir ao mar
Para com ele partilhar
Um pouco do meu tormento.

Parti então,
Mas minh’alma regressou
E também meu coração
Foi com ela e lá ficou.

Fátima Toste

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SONHOS EM ERUPÇÃO

Vi no fundo da cratera o teu olhar
Negro, lava arrefecida do vulcão
Que da sua entranha vinha a transbordar
Sonhos da minha juventude em erupção.

Recordo o passado, mundo aliciante
Navegando sonhos em mares de então,
Paraíso perdido, estória tocante
Que vive hibernando em meu coração.

Na neblina da tarde ouvi teu cantar
Numa voz timbrada, que me enterneceu,
Quedei-me em silêncio à luz do luar
E meu sonho falido quase renasceu.

A infância insular, passado vivido
Nas brumas d’outrora vem-me visitar
Sinto a mocidade dum sonho perdido
Despertar n’aurora, da onda do mar.

Minha realidade deixa-me cansada
Tricotando afectos que jamais serão,
Factos do presente, história finada
Nas lavas geladas do mesmo vulcão.

Fátima Toste

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autoria de Oscar Monteiro AS CORES DA NATUREZA

Decerto nunca ninguém,
Se apercebeu da beleza,
Que uma flor contém.
Pintada pela natureza.

Olhei em volta de mim,
Tudo pintado a rigor,
Na natureza sem fim.
Quem seria o seu pintor?

É o azul, o doirado,
O cinzento, o amarelo.
Tudo isto foi copiado,
Mas longe dum paralelo.

Este pintor orgulhoso
Pinta com tinta da terra.
É ainda mais rigoroso
Quando chega à Primavera.

Para além das lindas cores
Que deixa nos seus quadros,
São também os bons odores
Com que ficam perfumados.

Não há tinta, nem pincel,
Máquina ou computador,
Que transporte pró papel.
Um mundo de tanta cor.

Carlos Pereira
21 de Março de 2007

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AS MÃOS

As nossas mãos tão formosas
Beijamos vezes sem fim.
Tão perfeitas como rosas
Existentes num jardim.

Unidas fizeram laços,
Que rebocaram a vida,
E deram ternos abraços,
Aquando da despedida.

Nossas mãos também falaram
A linguagem gestual.
Uma à outra se juntaram
Sempre p´ra bem ou p´ra mal.

Unimo-las para rezar
A uma santa Padroeira,
E foram unidas amar
Durante uma vida inteira.

Eram tão fortes tão fortes,
Ó como eram resistentes!...
Foram elas os suportes
Quando estávamos doentes.

As nossas mãos enrugadas
Pelos tempos com fulgor,
Também já foram beijadas
Com carinho e amor.

As tuas mãos foram minhas
E as minhas mãos foram tuas,
Agora engelhadinhas
Caminham sós pelas ruas.

Esperam pelo que demora,
Vivem apenas por sorte.
Separadas a qualquer hora
Encontram a mesma morte.

Carlos Pereira
21 de Março de 2007

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autoria de Oscar Monteiro SER POETA

Ser Poeta
é predicado
Não se estuda nem se aprende
É um dom ao nascer dado
Não se compra nem se vende.

Ser poeta
é possuir
Rara sensibilidade
Da voz das coisas ouvir
E dar-lhes vitalidade...

Ser poeta
é entender
A perene Natureza
E em verso descrever
A sua bruma e beleza...

Ser poeta
é divagar
Pelo Universo infinito
Na ânsia de desvendar
O seu mistério inaudito.

Ser poeta
é transformar
Duma forma enternecida
As palavras para dar
Mais sentido à própria vida!...

Ser poeta
é ter talento
De expressar a inspiração
Ousado eu... Quando tento
Sou apenas pretensão !...

Euclides Cavaco

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autoria de Oscar Monteiro O QUE É POESIA …

O que é poesia não sei …
Só sei que me impele,
Corre nas veias e pele,
Como uma força sem lei

Corre em mim a esmo,
Sem princípio nem fim,
Como verso no jardim
Da folha por si mesmo

Talvez sejam as flores,
Em todas as primaveras,
Ou o sol das quimeras,
Calando as minhas dores

Talvez o mar profundo,
Ou o copioso, ígneo céu,
Em cerúleo, deífico véu,
Ou beleza do exíguo mundo

Porém, quem a definir
Ousou, pôde somente
Traçar o seu ambiente,
E deste modo se iludir

Tentar definir poesia,
É como tentar definir
Deus e amor, e omitir
D'alma, a dor, a alegria

Talvez, talvez, sei lá ...
Mas sei que a sinto,
Como por um instinto,
No coração onde está

Porque ela me busca,
Como me busca o amor,
Deus, a alegria e a dor,
Numa súplica brusca ...

Óscar Monteiro
Toronto, 21 de Março de 2007

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