DISCURSO DURANTE A INAUGURAÇÃO DO GRÉMIO LITERÁRIO

Oscar fazendo discurso durante a inauguracao do Grémio Oscar fazendo discurso durante a inauguracao do Grémio

foto de pena de ave e tinteiro

- Bem vindos a esta sessão inaugural do Grémio Literário de Língua Portuguesa e obrigado por estarem aqui.

- Também a Sra. Cônsul, Drª. Mª. Amélia Paiva, vai o nosso apreço, carinho e gratidão, pelo indelével apoio, colaboração e confiança no projecto. Pela sua égide aqui nos encontramos.

- Agradecemos ainda aos Órgãos de Informação Social aqui presentes.

- O prof. Dr. Manuel Louro, nosso co-fundador honra-nos com a sua presença, mesmo doente.

- Obrigado a todos os participantes nas leituras de textos e poemas e de entretenimento.


O Dr. Ricardo de Castro Lopo falará sobre os objectivos do Grémio e do Prof. Carlos Teixeira sobre a cobertura no Canadá,  de costa a costa. Eu vou debruçar sobre a Língua Portuguesa.

Mas antes, se me permitem, vou explicar a génesis do Grémio. Várias pessoas cogitavam com a ideia de que existisse uma organização que desse apoio a escritores de Língua Portuguesa. Eu conheci pessoalmete algumas. Mas é óbvio que houvessem outros escritores pensar no mesmo.

Contudo, o mais vocal, o mais sonante e o mais altíloquo, foi o Prof. Dr. Jose' Carlos Teixeira. Através das palestras que fazia ou noutras ocasiões, sempre que a oportunidade lhe favorecia, abordava este assunto.

Porém, a ideia continuava sempre utópica, sempre um desejo onírico, apenas uma vontade  inconcebida de muitos.

Assim, um dia, por ver qua a Comunidade Portuguesa já não era mais imberbe e que tinha recentemente celebrado os 50 anos de existência, e portanto atingido maturidade, abordei o Dr. Ricardo de Catro Lopo para pôr em prática esse sonho de tantos.

Falei com Ricardo, porque ele tinha experiência em projectos associativos. Ele foi o fundador e primeiro presidente da Academia do Bacalhau.

Despois de lhe ter exposto a finalidade do projecto, Ricardo achou-o fantástico e logo se ligou a ele, trazendo consigo a bordo o Prof. Dr. Manuel Louro, que também de imediato aderiu aos objectivos.

Faltava o Prof. Dr. Carlos Teixeira que, por razões que não me ocorrem, estava ausente e por isso, impossibilitado de contactar. Porém, assim que teve conhecimento, aliou-se também.

O homem sonha e a obra nasce disse o vate Fernando Pessoa. Assim, com esta equipa, despertou o Grémio para a vida, um projecto sem fins lucrativos.


Dr. José Eduardo Franco, Escritor, Historiador e Poeta coevo, de origem Madeirense, escreveu sobre o historiador do século 16, Fernando de Oliveira, no ensaio "FERNANDO OLIVEIRA, O CONSTRUTOR DO MITO DE PORTUGAL," no parágrafo "O mito das origens e a utopia do destino de Portugal" o seguinte:

"A história é para a sociedade como, o que a memória é para o indivíduo: se este perde a memória, perde a consciência da sua identidade, o sentido do presente e a capacidade de projectar o futuro, porque não possui o suporte gnoseológico (experiencial, intelectual, afectivo,...) que lhe permita encadear o tempo e a história e os seus mananciais de sabedoria, aspiralmente constituída, de modo a ler e a recriar a sua situação existencial. Assim, a história é para a sociedade esta mais-valia fundamental, cuja hermenêutica não é indiferente, mas antes mobilizadora da dinâmica do presente e é perspectivadora das expectativas formuladas em relação ao futuro."

Este trecho captura bem, a razão porque, "Portuguese Language Writers of Canada - Cultural Association, designada por Grémio Literário de Língua Portuguesa floresceu...

Para que a memória colectiva da nossa Língua não se cale,
Para que a Língua Portuguesa, com pundonor, sempre forte,
Permaneça eviterna na sua ostentação e fulgor, e dela se fale,
Neste Novo Reino, que por entre gente remota edificamos,
Com trabalhos e sacrifícios esforçados, para que o seu norte,
Da lei da morte se liberte, pois para tal, tanto a sublimamos...

... afirmo adaptando a proposição Lusíada de Camões, numa perspectiva e expectativa formuladas em relação ao futuro, mobilizada na  dinâmica do presente. Numa especie de analogia a "Cogito ergo sum" (Penso, logo existo) de Rene Descarte, de uma maneira indirecta, direi que para levar-nos ao "pensar do passado", para "existir no presente" e, através do legado dos que escrevem,  para "perpetuar no futuro."

Quando o mesmo Fernando Pessoa disse: "A minha Pátria é a minha Língua", estava longe de imaginar que a Língua Portuguesa fosse a Pátria de outras nações novas. Uma Língua sui generis, nobre, sublime, que transporta elementos e ismos de muitas culturas, anglicismo, galicismo, africanismo, orientalismos, americanismos, etc. Uma Língua com flexões cheias de cor e matizes; uma Língua aromática, pitoresca, canora, picante; uma Língua dos poetas, elevada e erudita e portanto uma Língua que deve ficar perene.

Aliam-se a ela também outros nomes que a elevaram do seu pedestal: Na parte dos poetas, para além dos citados atrás, entre outros, Bocage, mais conhecido vulgarmente pelas suas anedotas maliciosas, Florbela Espanca, Sofia de Mello Breynner, José Saramago, prémio Nobel de Literatura, José Craveirinha, Mia Couto, António Baticã Ferreira,  Eugénio Tavares, Agostinho Neto, Aires De Almeida Santos, Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac, etc. Na parte de vozes canoras, entre outras, a da Amália Rodrigues, Bonga, Cesária Évora, Roberto Carlos, Vincio de Moraes, com fados, mornas, merengues, marrabenta, samba, bossa nova, etc. No tocante ao aroma e picante, a culinária, etc.

Pela viagem que fez, de oceano em oceano, de porto em porto, de cidade em cidade, a Língua Portuguesa tocou a vida de muitos. Assim, embora com o berço no Castelo de Guimarães, já não pertence mais a Portugal, pertence agora ao Mundo. Por isso, o foco do Grémio, é a Língua Portuguesa.

A filosofia ou missão é a de procurar preservar, expandir e valorizar a Língua Portuguesa, e procurar desenvolver uma ampla apreciação por ela no Canadá. Com isso pensamos que vamos enriquecer e beneficiar ainda mais, concomitantemente a Comunidade Luso-Canadiana, e outras de expressão Portuguesa.  

A visão é a de construir um futuro brilhante para os jovens, deixando um testemunho do presente, dos nossos feitos, das nossas vivências.  O Grémio como concretização desta visão, é uma ponte a ligar duas margens - a da Comunidade Portuguesa, e as das outras Comunidades de expressão Portuguesa, com a da larga Sociedade Canadiana - dando assim, visibilidade as margens mais pequenas ou seja as Comunidades Lusófonas. Por isso, é uma Língua que merece ser cultivada nesta nova dimensão.

Miguel Torga na sua obra "Câmara Ardente" afirmou: "Em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar". Foi também com esta visão que lançamos as fundações do Grémio Literário. O destino como ponto final de chegada é importante, mas, a jornada que está a ser encetada e que pretendemos percorrer para atingir esse fim é mais importante ainda, porque sem ela, não há chegada.

Para isso, decidimos tomar as rédeas deste caminho, com a pujança do nosso humilde e modesto saber. Sempre com a constante preocupação de enaltecer e engrandecer a Língua de Camões e as Comunidade Lusófonas. Sempre com desejo de zelar e manter acesa a sua chama, estimulando, incentivando e apoiando, quem escreve na Língua Portuguesa.

Achamos que, os que escrevem devem ser notados e terem visibilidade. Mesmo num espaço pequeno, numa espécie de um local, numa biblioteca, onde se juntem os autores e simpatizantes, nomes conhecidos e nomes pouco divulgados. Num lugar onde possamos cobrir uma larga variedade de assuntos, onde a mente possa cogitar, inspirar, criar...

Estamos cientes do grande trabalho que vamos ter pela frente, mas estamos com vigor e temos álacre confiança e optimismo. Poderemos estar apreensivos mas isso é natural; podemos não ser alipotentes, mas como se diz, devagar se vai ao longe. E estamos certos de que não passarão dias sem a fresca descoberta de assuntos e factos interessantes que, como fonte de água diáfana, na longa caminhada, nos irão suster e saciar.

Sei que estaremos a sulcar, mares incógnitos do futuro. Mas isso não nos assusta. Pugnaremos contra os velhos do Restelo e Adamastores e passaremos para além da Taprobana.

Como disse Padre António Vieira: "Há homens que são como velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros". Assim seremos. Este foi o desafio que escolhemos.

"Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena" escreveu Fernando Pessoa.

Por isso este é o nosso apelo a vós. Juntem-se a nós. Obrigado.

Óscar Monteiro
Presidente do Grémio Literário
Toronto, 26 de Outubro de 2006
Inauguração Oficial do Grémio  
Consulado de Portugal

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